O Exército é realmente Nacional porque seus quartéis permeiam todo o território brasileiro, sendo o uniforme verde-oliva visto mesmo nos mais recônditos grotões, nas clareiras da floresta amazônica, junto às linhas fronteiriças, nos pampas gaúchos, planuras do centro-oeste, montanhas do sudeste e do centro, caatingas nordestinas e paradisíacas praias do nosso litoral.

Seus oficiais e graduados são deslocados freqüentemente, e eles, adentrando o novo aquartelamento onde vão servir encontram um ambiente conhecido, pois a vida numa unidade militar é quase igual à de todas as demais. Porém, e sua esposa e seus filhos? Nova residência, vizinhos desconhecidos, os filhos em outras escolas, regime escolar diferente, colegas estranhos; saudades dos familiares e amigos que ficaram no local de onde vieram; às vezes clima completamente diferente; isolamento, enfim.

Grande parte dos comandantes de guarnições preocupam-se em tornar a permanência dos familiares de seus subordinados o menos penosa possível, promovendo reuniões para aproximá-los, porém sem lugar adequado à finalidade de congraçamento dos militares e suas famílias toma essa tarefa penosa e pouco eficiente. Nas grandes guarnições, com muitos estabelecimentos militares, onde há um comando superior, a obtenção dos meios necessários fica mais fácil e mesmo um número grande de famílias exerce naturalmente mais pressão.

Belo Horizonte, nos idos de 1940/1950, era uma guarnição pequena, com apenas o 10°, hoje 12° R1, a CR, hoje CSM, o QG da 4a DI e o CPOR, porém a idéia e a vontade de conseguir um local próprio onde fosse possível fundar uma associação era permanente, era um sonho que embalava a esperança de todos os militares.

Em toda a coletividade há sempre alguns que absorvem os anseios da maioria e a eles procuram dar concretização. Servia na Guarnição o Ten do Quadro Auxiliar Durval Alves de Souza, que tinha um gênio arrojado e, embora apenas um primeiro tenente num meio onde despontavam até generais, resolveu tomar a iniciativa da fundação de um clube que abrigasse a família militar do círculo dos oficiais.

O Ten Durval conseguiu a cessão do salão Nobre da Associação dos Empregados do Comércio, marcou dia e hora, e convidou inúmeros oficiais de todas as patentes para se reunirem.

Assim, no dia 13 de dezembro de 1953 reuniram-se no referido local doze militares, conforme relacionados na Ata e treze, conforme a lista de presença. Considerando a lista de presenças, havia um General de Brigada R1, 1 Major R1, 2 Cap R1, 5 10s Ten R1, 1 2° Ten R1, 22° Ten R2 estagiando e 1 Asp Of R2 estagiando.

Nessa primeira Ata, de 10 de dezembro de 1953, o Ten Durval é chamado de "idealizador do Clube dos Oficiais da Guarnição Federal". Na verdade, o Ten Durval não foi o idealizador da associação, pois a idéia era antiga e comum a todos. Seu grande mérito foi dar a arrancada com a finalidade de concretizar o sonho acalentado pelos militares da guarnição há tanto tempo. Também nela a agremiação a ser formada recebeu o título de Clube dos Oficiais da Guarnição Federal e os presentes se declararam membros constituintes de uma Comissão Organizadora do futuro Clube.

O Ten Durval era uma figura interessante. Voluntarioso, vontade forte, e de difícil convivência. Foi o detonador do processo de criação do nosso Círculo e da ABEMIFA - Associação Beneficente dos Militares das Forças Armadas, mas em ambas em pouco tempo deixou de fazer parte da direção, por dois motivos. Um deles foi seu gênio exaltado, fazendo-nos lembrar do princípio de que não se fazem revoluções sem os exaltados mas elas não sobrevivem com eles. O outro motivo é que a empreitada era muito pesada para seus ombros, e outros mais fortes, na hierarquia e na representação junto à sociedade, deveriam substituí-lo.

No dia 11 aquele grupo pioneiro visitou o então Cmt da 4a Divisão de Infantaria, sediada em Belo Horizonte, Gen Div Antônio José de Lima Câmara, ao qual informaram da reunião havida, sua finalidade e pediam seu apoio. O Gen Lima Câmara acolheu com entusiasmo a iniciativa, e no dia 14 e dezembro de 1953, fez publicar no Boletim Divisionário n° 53, com o título de Clube Militar de Belo Horizonte, uma nota convidando os oficiais da ativa para uma reunião às 16 horas do próximo dia 19, na Associação dos Empregados do Comércio. Sabe-se que o convite de um general é uma ordem.

Aquele pugilo de oficiais pioneiros não parou. No dia 16 reuniu-se na sede da Legião dos Veteranos de Guerra do Brasil, Seção de Belo Horizonte, já agora acrescido de vários outros que foram cooptados, inclusive o Gen R1 Berzelius Veloso Figueira, a fim de organizar o temário da reunião prevista para o dia 19.

Nessa ocasião foi formada uma nova Comissão Organizadora, sob a presidência do Gen Berzelius, incluindo vários oficiais superiores, inclusive o Cel Diretor do Parque da Aeronáutica de Lagoa Santa, com secretaria, tesouraria, diretorias e comissões.

No dia 19 de dezembro, enfim, na Associação dos Empregados do Comércio, foi realizada uma importante reunião, que se transformou em assembléia com a presença de um general, um almirante, oficiais superiores da ativa e da reserva do Exército e da Aeronáutica, oficiais de menor patente do Exercito e os comandantes de unidades do Exército em Belo Horizonte. O Gen Berzelius foi eleito Presidente de uma Diretoria Provisória, que era também Comissão Organizadora, com várias diretorias e comissões.

Nessa mesma assembléia entrou em pauta a designação do título definitivo do Clube, tendo sido sugeridos os títulos Círculo Militar, Círculo Militar de Minas Gerais, Círculo Militar de Belo Horizonte, Círculo Militar com sede em Belo Horizonte, Clube Militar da Guarnição Federal, Círculo Militar Federal de Belo Horizonte e Círculo Militar Belorizontino, sendo aprovada, após muitos debates, a atual denominação. Outra resolução foi aceitar associados civis, porém sem direito a voto.

A comissão criada para redigir o estatuto trabalhava afanosamente e, em assembléia de 13 de fevereiro de 1954, pôde apresentar seu trabalho. Não houve tempo de debater todo o conteúdo de nossa carta magna, de modo que foi convocada outra assembléia para o dia 20 seguinte, na qual ainda não foi possível aprová-lo, pois surgiram muitas duvidas e os presentes acharam por bem a constituição de uma Comissão de Revisão do anteprojeto do mesmo. A assembléia foi suspensa e retomada em 13 de março, quando finalmente foi o estatuto aprovado.

No dia 27 de abri! de 1954 foi eleita a primeira diretoria efetiva, encabeçada pelo Cel Franklin Rodrigues de Morais, febiano, Cmt do CPOR, e sua posse deu-se no dia 22 de maio, em festiva reunião realizada no auditório da Secretaria de Saúde e Assistência.

Não poderia ter sido mais feliz a escolha do dirigente de nosso Círculo. Nos albores da entidade, em que tudo estava por fazer, e fazer sem recursos, a tarefa era titânica. Para levar a cabo a ingente missão, o Cel Franklin cercou-se de auxiliares de grande espírito público que o secundavam. Pelo seu próprio modo de ser, por ser esportista, ter feito parte da Missão Militar para a instrução e formação de oficiais da PMMG e vasta relação de amizades, tinha grande relacionamento nos meios empresariais. Obteve do Governo do Estado e da classe empresarial, grande cópia de recursos materiais e mesmo em dinheiro, para a construção da sede do Círculo. Empresas como a Mannesmann e a Belgo Mineira muito auxiliaram. Também obteve serviços de sondagem do terreno, confecção de plantas e de mão de obra. E assim deixou a sede concluída e o terreno quase totalmente beneficiado quando foi obrigado a afastar-se da Guarnição por ter sido promovido a general, em 1961.

O Círculo teve promessas do Estado e da Prefeitura na cessão do terreno onde a sede seria construída, mas não se concretizaram. Finalmente o próprio Ministério do Exército obteve do Serviço do Patrimônio da União a cessão do terreno atual, que foi cedido em comodato em duas etapas.

Ainda para a construção da sede o Ministério do Exército, através de seus departamentos financeiros, ajudou com numerário, e as unidades sediadas na capital mineira também deram contribuição em dinheiro, material e mão de obra. O Ministério da Aeronáutica também contribui com pequena importância em dinheiro e serviços. Os próprios militares do Exército, em grande parte, apesar de seus parcos vencimentos, deram sua colaboração.

A criação e a construção do nosso clube foi, na verdade, uma epopéia. Vieram depois outras diretorias. O terreno foi aos poucos sendo ocupado com novas quadras de esporte. Foi construído o ginásio. Muitas festas foram realizadas. As equipes do Círculo sempre se destacaram nas competições amadorísticas. O quadro social ampliou-se muito, e os associados civis sempre se irmanaram aos militares para fazer de nossa agremiação uma das mais conceituadas de Belo Horizonte.

Senhoras e senhores,

Pelo trabalho constante de todos os seus associados, motivados pelos amor que lhe dedicam, o Circulo Militar de Belo Horizonte é hoje uma estrela da maior grandeza na constelação formada por todos os Círculos Militares do Brasil. Seria da maior justiça nomear todos os que, neste seus 55 anos de existência o edificaram, mas isto não é possível. De todos aqueles pioneiros da histórica reunião de 10 de dezembro de 1953 permanece nos quadros de nossa entidade o Major Athayde Persechini, sempre batalhador pelo seu crescente desenvolvimento. Resta então a todos nós, em nossos corações, manter viva a gratidão que por ele sentimos.

Muito Obrigado.

Texto redigido por Adalberto Menezes